domingo, 17 de junho de 2012

Meu grande cálice

                                       
                   
   
    Pouco antes do meio-dia numa segunda-feira. Dr. Anderson Anchieta, advogado e pai de família esperava relaxar um pouco na sua ida inusitada à Praça Das Mangueiras para comprar cachorro-quente. Não que fosse prazer seu ir comprar tais coisas. Era pelo contrário desonroso, uma forma de se afastar de seu mundo que o chateava.
   —3 reais, senhor. Vai desejar mais alguma coisa? Suquinho pra descer rápido? oferecia o senhorzinho gordo de bigode quadrado do outro lado do balcão na lanchonete movimentada.
   — É só —. E deu o dinheiro sem pegar o troco, saindo em busca dum lugar mais calmo.
   Tinha fome e queria comer logo. Enquanto andava, fitou o cachorro-quente em suas mãos e o levou logo para a boca. Parou, mastigou-o mais um pouco e cuspiu tudo com um nojo terrível. Ainda bem que já estava longe das vistas e dos ouvidos do vendedor.        
   Em quinze passos ao lado chega a um banco sob a sombra duma das muitas mangueiras por ali. Senta-se, para descansar as pernas cambaleantes.
   De inicio pareciam haver pregos fincados no assento, pelo jeito que dr. Anderson mexia-se, pois se costume era usar poltronas macias, e até delas reclamava com muita frequência.
   “Aquela lanchonete merece ser fechada!”, pronunciava baixinho para si ao olhar o cachorro-quente jogado logo em frente, a 20 passos de distância. Ao pensar no gosto o comparou com a sua vida. Percebeu que ele era a metáfora exata dela. “Tão amargo, ruim e porco quanto, mesmo que chame interesses pela aparência!”
   Então seu celular toca, ou como prefere chamar, “o maldito aparelho está fazendo barulho”. Miguel, o filho, ligava para saber se o pai o iria levar ao aniversário de onze anos do colega de sala Felipe.
   — Eu tenho coisas mais importantes, filho. Agora mesmo estou bastante ocupado. Tenho que desligar. Pra isso eu deveria sair às cinco do trabalho. Não vou sair mais cedo e perder de atender clientes por causa da festinha desse tal colega.
   A mulher e o filho: pragas em sua vida. Graças a este perdera o bons sentimentos por aquela. Alegava terem secado todos nos chorinhos de Miguel nas madrugadas até os seus 2 anos de idade, nas "birras infernais" para passearem mais tempo juntos que ainda persistentes, etc. Tudo o fez mudar para a mulher; e para pior. A pobre Andressa vinha sofrendo amargamente, engolia calada todo o fel numa paciência quase que santa para o bem do filho, da família e do seu coração que por ele continuava pulsando. E ele, a todo o suportar dela, vinha respondia com prostitutas da cidade vizinha.
   Anderson inclinou levemente para o solo sua cabeça pensando e olhando os pés dos transeuntes moribundos ou não que passavam em sua frente e que possivelmente iam às suas casas apressados para o almoço. Lamentava a má vida que aqueles “pobres infelizes” deveriam ter.      
   Entristecia-se, pensando que a vida deles era duma desgraça sem tamanho, incomparável ao cachorro-quente nojento. "Como ainda persistem na vida?" Eram pés que por suas deduções deviam “diariamente pisar o pão que o Diabo escarrou”. Sem os seus desfrutes duma adolescência tão saudosa e prazerosa: farreando nas noites e madrugadas, a gastar muito o dinheiro do pai que também era advogado, andando de motocicleta pelas ruas até tarde com seus amigos, e durante dia dormindo para repor as energias. Chegava a rir se perguntando como chegara a se tornar um bom advogado... Que saudades! Sem mulher, sem filho, sem trabalho... Sem responsabilidade, protegido pelas asas dos pais. Bem diferente do “Cálice de Dor” que sentia.             
   “É que nem esse cachorro-quente: intragável”, continuava ele. E ficou ali, por mais quinze minutos sentado, olhando pés e se lastimando. Lembrou-se do café um pouco sem açúcar de manhã, da sua necessidade de acordar às oito e meia da matina para trabalhar, do seu cachorro que tinha defecado na sala deixando tudo fedorento dentro de casa logo cedo, da porta que enganchou ao tentar abrir, do computador que estava lento, da fala enjoada dum cliente, do calo que tinha no pé, do calor infernal daquele dia... E do outro lado via comprazido o seu passado: as carícias confortantes de sua mãe quando ele chegava da escola enraivado por causa  professora que tinha o exigido calar-se, da sua vidinha ociosa de bebedeira... Tudo há muito passou todavia ele sentia seus ecos no coração.
  “Eu não mereço esse cálice em que vivo, é demais para mim e pra qualquer um!”, falava baixinho. Era como o cachorro-quente. Era intragável.
    De cabeça levantada respirou fundo. O estômago roncava e precisava fazer o seu almoço. Avistou a uns quarenta metros a sua frente uma velhinha magra, de lenço na cabeça, vestida em andrajos estampados de bolinhas, que seguia em sua direção com um cachorro que era coro osso e fome. Ela andava apressadinha, de pé bem firme e olhar fixo não se sabia em que, mas parecia ser no próprio Anderson. “Deve estar querendo me roubar àquela ladra. Ah, não tenho medo duma criatura tão fraca e miserável”, pensou sem se mover.
  Ela se aproximava olhando pro chão e para frente, levantando e abaixando a cabeça com medo de tropeçar em algo e estabacar-se; já estava atravessando o meio da rua, bem atenta aos carros e ao alvo de sua perseguição. Seu rosto parecia uma máscara mal colocada e pendente, suas pelancas balançavam enquanto batiam ligeirinhos os pés descalços no chão. A boca estava meio aberta e ela parecia estar arfando. Tinha os olhos meio arregalados, bem vivos.
   Era só o cachorro-quente no chão o desejo dela, aquilo para qual olhava tão fixamente. Parou, se agachou com a mão esquerda nas costas fazendo uma careta, pegou-o, tirou o excesso de sujeira com as mãos quase tão sujas quanto o chão e deu mordidas rápidas e agoniadas, como se fossem a última coisa que pudesse fazer em sua vida, sem esquecer-se de dividir um pequeno pedaço com o cachorro que de imensa felicidade abanava o rabinho. Terminada a refeição, ela sorriu e saiu com o companheiro feliz da vida como se fosse tudo a coisa mais natural do mundo. 
  —Mas que!... ela... o... Como? Será que?...
  Ficou sem palavras. Saiu em direção à lanchonete de novo, comprou outro cachorro-quente. E saiu deliciando-se com aquele SEU lanche.






Fonte da imagem usada: jorgemiguelcs.wordpress.com

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